Importante

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sábado, 20 de janeiro de 2018

Políticas


Habitamos este planeta plural e repleto de singularidades, mas nossa mentalidade é dual. O que fazer pra criar congruência entre esses dois aspectos? Talvez nada. Pelo menos se nos limitarmos a padrões já usuais. Na prática ainda vai levar tempo (e espaço) pro Homem vivenciar a relatividade quântica descoberta por Einstein.

O Homem se opõe aos elementos,  interfere.  Cultura versus Natura. Desvia cursos de rios, faz represas, desmata, mata animais que são parte vital do ecossistema.

Mas, duais que somos e não plurais, nos apegamos a cara e coroa, claro e escuro, frio e quente, Bem e Mal. E nestas oposições que induzem a desconsiderarmos as nuances das transições, ações e pensamentos literal e subjetivamente sempre em construção, pautamos nosso comportamento.

Some-se a isso os invisíveis grilhões da retidão a violentar nossa natureza dual que deveria ser plural, temos códigos morais distorcidos por fundamentalismos, ou plenos de idealismos praticamente inatingíveis por nós, “defeituosos”.


Portanto, nossos dualismos costumam ser punidos em várias instâncias, o que instiga à hipocrisia, ao bom-mocismo de ocasião e a uma - ora velada, ora não – caça às bruxas. O sistema do “crime & castigo” vagando qual fantasma tentando vestir carapuças e errando alvos, a serviço dos interesses políticos e manipulações.


Dual

Quando amo e quando odeio
Coronárias e neurônios
Meio anjo e demônio
Me revelo ou me refreio

Sou vilão, herói, refém
Sou cruel, maniqueísta
Solidário, altruísta
Sou do mal ou sou do bem?

Sou xamã, pagão, judeu
apostólico romano
Rezo o terço e mato Deus

No vitral, santo profano
Hóstia em boca de ateu
Dualidade é ser humano




domingo, 14 de janeiro de 2018

Vício benigno


Os dias em que escrevo me parecem com mais sentido e graça que os dias em que não escrevo.

Penso que tenho uma relação um tanto litúrgica com o escrever. Não que isso signifique que eu seja extremamente diligente, metódico e organizado. Nem sou tanto, apenas me esforço em ser menos caótico.

E como nessa liturgia particular eu sou o Papa e redijo (e reformo) as bulas e homilias, ela não é prisão e segue mais o princípio dionisíaco do prazer que o apolíneo do dever.

Sentido.

Direção e sentir. O duplo significado dessa palavra é perfeito. Tem momentos em que o sentir e o compreender não são duas entidades antagônicas que excluem a outra. Tem vez e não é pouca, que o sentido é significância e sentimento, lógica e emocionalidade.

Diz-se que é preciso sentir pra compreender. Também se diz que é preciso compreender pra sentir. Eu diria que é (im)preciso o sentido: sentir e compreender de forma simultânea e assim, fruir.

E isso se dá no âmbito do poético, tanto no que tange ao leitor, quanto ao autor. Se poetas mentem, no sentido cotidiano e cartesiano do termo, ou se falam a verdade, essa também cartesiana, não importa. Tudo é verdade. E a verdade poética não é menor que a do dia a dia mais banal.

Poetas ou quaisquer artistas têm como fonte permanente de trabalho, de criação, a imaginação. E um filósofo que agora não me ocorre qual, disse que a imaginação é um bem tão real quanto qualquer outro. Pois a verdade poética é tão real e valiosa quanto qualquer outra e, poeta que sou, ouso um pouquinho acrescentar que certas verdades poéticas são mais valiosas que algumas verdades filhas do senso comum.

Maiorias não são necessariamente proprietárias de verdades inquestionáveis.

Não sei a dimensão do que transborda pro leitor, não sei bem desses processos, mas sei em mim, que escrever me constitui, me resgata do vácuo da existência, de não respostas pra mil perguntas. Não por acaso já usei inúmeras vezes a metalinguagem pra retratar essa questão vital pra mim.

Hoje está fazendo mais sentido e tendo mais graça. Porque estou escrevendo.



terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Dúzia menos meia



Já são seis anos, dois mil cento e noventa dias de Jorge Ricardo Dias blablablando nesse blog prosesco e de poesia. Parece que foi anteontem ou então me confrontem se nesse meio tempo o tempo não voou sem asas, mas destelhando casas e pensando fora delas. Sempre considerei isto aqui uma conversa e vice versa o vício de ofício que versa flor e precipício. Nessa jornada não faltou nada, de choro a gargalhada, de realismo nu e cru a delírios experimentais e coisas que tais. Centenas de zarpagens do cais sem planos de ancoragem com o medo perdendo pra coragem de se perder na viagem. O presente livre da embalagem. Pretextos pra textos açucarados e de arame farpado, sussurros e gritos, anjos e malditos, eclipses e auroras, a pressa das horas, o acrobata suspenso, o que sinto e penso com bom e mau senso, os ventos do sentimento que não cabem nesse mundo imenso. Compartilhamento, soma, toma lá da cá. Aí estou e aí está. Seis curtos anos de pensar sentir escrever com prazer


Vide bula



Palavra é ritmo e dança
Brinquedo de desmontar
Palavra é de som e ar
Aguda ponta de lança

Contida, exaltada. chula
Chicote ou doce canção
Carícia ou demolição
Na dúvida vide bula

É mapa, é lei, estrutura
É luz numa mina escura
Ou pura contradição

Mentira mais verdadeira
Verdade mais traiçoeira
Não diz sim e sim diz não



sábado, 23 de dezembro de 2017

Eros e Vênus


                    Caudal

O vinho convinha o frio na espinha o hálito cálido que ofega se entrega se esfrega escorrega pros vãos mão que esculpe não se culpe e vá além de trem de navio pólvora e pavio rio caudaloso de afeto e gozo vórtice amoroso braços são correntes santa correnteza suga os afluentes atè beijar o mar alma em calmaria no raiar do dia

                                            

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

sábado, 9 de dezembro de 2017

Mel e fel


Nem toda água é potável. Mas nem todo tema é poetável? Existem temas espinhosos, mas uma vozinha sempre me diz: _Vai fundo que o mundo não é só júbilo e gozo e não são só de tijolos amarelos os trajetos. Não são só orquídeas e rosas mas também as insidiosas plantas que devoram insetos.


Pollyannas e Pollyannos preferem que as pedras não sejam arremessadas na plácida superfície do lago a revolver o lodo do fundo, mas se o profundo se faz raso, a razão é estrangulada pela emoção e daí se vai e se esvai o equilíbrio. Pensar fora da caixa é bom e bem-vindo, mas fora da caixa não é um cenário de peça infantil. Somos crianças adultas e nada de temáticas ocultas pra não causar abalos e não doer nos calos. Flor que é flor é pétala e espinho. Bebamos água mas também vinho. A vida, ávida, é mel e fel.


Promessas da razão

Todos os motivos pro cinismo
Toda pequenez na vastidão
Todos os atalhos pro abismo
Todos os cupins da corrosão

Todas as paixões e seus castigos
Todos os demônios no porão
Todos os covardes sem perigo
Todos os punhais da castração

Todos os desvãos do labirinto
Todos os desejos tão famintos
Todas as promessas da razão

Tudo assim no dito por não dito
Tudo que é póstumo e maldito

Tudo que era sim e agora é não


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Tudo sobre o nada


Volta e meia – e na outra meia volta também – a dura concretude da realidade tem de ser atenuada pra aliviar a pressão, seja com simples escapismos, ou com arte, prazer, riso, beleza e por aí vai-se, sem que se esvaia a consciência do que é denso e grave.

Eu, como cidadão poeta tento fazer minha minúscula parte e não me omito em minha escrita e arte. Então me permitam quando em vez tergiversar, enveredar por trilhas que deem em açudes plácidos, com céu de nuvens brancas e brincar, brincar com as palavras, seus sons e significados, brincar de ser filósofo, repórter e palhaço, ajudando a nutrir o lúdico que todos carregamos e que se faz necessário preservar e fomentar.


Talvez a arte e a poesia não vão mudar o mundo, mas se elas fizerem sorrir, pensar e se emocionar, já será uma imensa redenção.


Tudo sobre o Nada

Sabemos pouco do Nada
A morte ou a negação
O corte, a desconstrução
Pensar que nunca acontece
O que pra sempre se esquece
Tudo o contrário do Nada
Tudo o que o Nada não é
Nada fazendo emboscada
Pra Tudo fugir de ré
Ser Tudo é grandiloquente
Ser Nada é ser indigente
Pragmático é, contudo
Que se infere por verdade
Num copo com meio Tudo
Nada há noutra metade