Importante

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sexta-feira, 24 de março de 2017

Arrima



A rima é prima da música, canção quase sempre rima, repentista rima bem e fácil e veloz. Rima-se no papel e na voz, nós rimamos por instinto e tradição, rima é mnemônica até no Eduardo e Mônica. Rappers rimam feito ímã que atrai o som, rimar é bom mas Neruda, não se iluda, fez sonetos de amor sem rima alguma. Leminski e Millôr, agudo humor, puseram rima em haicais geniais, aliás Shakespeare rimava mas poeta atual manda às favas rima escrita e verbal. Rimar é o mar que ri porque o poeta remar lhe causa cócegas. Rimar às cegas é como poça no fim do escorrega mas rimar com verve o poema ferve. Rima rica rima pobre e preciosa, se a alma goza e não é pequena rimar vale a pena. Rima é facultativa mas se surge a diva ao luar como não rimar?



Devir


Dia virá
em que a ostra
porá à mostra
sua pérola íntima
Dia virá
em que Buda, Krishna, Cristo, Alá
serão um só
e ouro em pó vai revestir
os pregos do faquir
e a Aurora Boreal
Dia há de vir
em que nada fará mal
e o desigual será matiz
de todo igual que lhe é matriz
E nesse dia
a poesia se dirá

mesmo em silêncios


sábado, 18 de março de 2017

sábado, 11 de março de 2017

Etérea matéria


Somos  seres regidos pela dicotomia corporal/mental, sensação/sentimento, matéria/espírito.

A angústia predomina quando essas duas naturezas por algum motivo não se harmonizam.
Não importa  o sentido do caminho, quando o denso e o impalpável se interpenetram, vem a plenitude e a alegria.

Camile Claudel esculpe em bronze e sua pequena estátua  como que grita e explode em vida na percepção de quem a vê.
Um violinista extrai da madeira e das cordas notas musicais que invadem o ar rumo aos tímpanos dos ouvintes criando imagens e emoções intangíveis.

Nossa  porção corpórea tende a ser cartesiana, materialista, lógica, de crer no que vê, e buscando a transcendência de ver o que crê.
Afeto e tesão podem se originar um do outro.  De novo vale a via de mão dupla onde se cruzam e encontram nossas naturezas dicotômicas.

Beijar e abraçar são atos físicos que além de afetar os sentidos são plenos de energia emocional sentimental impalpável  e dotados de carga fortemente simbólica, logo, intangível.

O corpo se ressente do que lhe basta e falta, na sua contraparte corpórea, matéria que atrai matéria, mas, já querendo mesmo rimar, a alma que nos anima é etérea que atrai etérea. Então esse lado nosso mais sublime se liberta de seu veículo somático e, intangivelmente vence distância e tempo e de modo invisível cria novas realidades que nem por serem intangíveis são menos reais. Como o amor.



Os três sentidos


Mesmo que entre nós exista um mar
Três milhões de torres e portais
Dez mil anos-luz, quem sabe mais!
Não se faz preciso te tocar

Antes que o meu nome tu recordes
Já surgi veloz em pensamento
Meio suspirar e já estou dentro
Nada que é do sonho e do que acordes

O amoroso elétron toma senso
Ínfimo, agiganta o gozo extenso
E ambos são Golias e Davi

Triplo é o sentido do sentido
Corpo, mente e espírito fundidos
Pleno é o sentimento: agora e aqui



sábado, 4 de março de 2017

Palavra: o que não a mata, a fortalece


Os futurólogos e gurus da informática não puderam prever a verdadeira erupção do vulcão adormecido da palavra escrita, com a popularização da Internet.

O advento do computador pessoal, portátil ou não, está criando novos amantes da palavra e quiçá futuros escritores, ou no mínimo ávidos leitores, familiarizados pelo intenso treinamento da febril digitação de mensagens de texto ou mesmo em conversas em tempo real nos instant messengers em notebooks e smartphones. Sim, porque recentíssimas pesquisas mostram que os jovens preferem a comunicação por escrito às conversas de viva voz. Basta que observemos: a quantidade de gente digitando mensagens é muito maior do que a gente falando nos celulares.

Ora, direis, que esse, digamos, novo paradigma não aponta necessariamente para uma evolução, um aperfeiçoamento massivo de hábitos, mas quais parâmetros nossos serviriam de base para esse julgamento? As bienais e feiras do livro desmentem isso de forma concreta, o livro, ou seja, em última instância a linguagem escrita, a palavra impressa está reavivada, redimida, resgatada. Se isso vai perdurar, não arrisco prever; nesses tempos velozes e vorazes tudo pode mudar.

Mas...peguemos carona nesse bonde pós-moderno e nos deixemos levar por onde e para onde a palavra nos queira levar, com seu poder de nutrir a imaginação, de instigar as ideias e o debate delas. Sou um eterno apaixonado pelas palavras e a cada momento percebo que existem muito mais iguais a mim do que eu antes podia imaginar.


Vide bula


Palavra é ritmo e dança
Brinquedo de desmontar
Palavra é de som e ar
Aguda ponta de lança

Contida, exaltada. chula
Chicote ou doce canção
Carícia ou demolição
Na dúvida vide bula

É mapa, é lei, estrutura
É luz numa mina escura
Ou pura contradição

Mentira mais verdadeira
Verdade mais traiçoeira
Não diz sim e sim diz não


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Poemas de rua

Nesses tempos de tablets, smartphones e outros “gadgets”, ainda não me acostumei com escrever, criar, nesses pequenos dispositivos. Já tem alguns anos que criei o hábito de escrever direto no computador, mas a escrita à mão não abandonei completamente; num caso isolado ou outro, ainda lanço mão (literalmente) da caneta e papel, que foram meus instrumentos por longo tempo.

Mas o problema é quando não estou em casa. Romancistas e contistas são escritores eminentemente caseiros no ato de escrever. Eu diria essencialmente caseiros. A escrita deles é extensiva e contínua, ao passo que os poetas são mais fragmentários, mais econômicos e imagens, ideias, palavras vão surgindo meio atrevidas e insolentes e sem escolher hora e lugar pra “atormentar” seu atarantado porta-voz, que é o poeta. É meio como ser um repentista mais vagaroso e que cria em silêncio.

Sendo assim, o “assalto” ocorre numa fila de banco, no supermercado, correndo na beira da praia, num trajeto de carro, enfim, em situações imprevistas em que nem sempre é possível sacar o smartphone e digitar no bloco de notas.

Já me aconteceu inúmeras vezes e penso que não vai parar: ter que apelar pra minha memória. A minha sempre foi boa, mas a distração e o excesso de informação nos afeta e faz parciais desmemoriados. Mas com a poesia ocorre um fenômeno: a memória se mostra quase infalível. 

Não sei quantas vezes que, sem caneta e papel, sem celular, sem lenço nem documento, fiz estrofes inteiras, às vezes até poemas inteiros ou quase, “de cabeça”. Eu mesmo fico incrédulo e atribuo isso ao medo de perder a ideia, a palavra, o verso e esse medo me faz obstinado a ponto de reter tudo e “salvar” os versos no HD de massa encefálica. A cada trecho já “escrito” reviso, declamo mentalmente e só aí prossigo na criação.

Quando chego em casa, aflito, corro pra máquina, olho pro teclado e despejo tudo na tela, com grande alívio, nesse louco “delivery” de poemas de rua.

Não recomendo esse hábito a ninguém, o risco da perda é alto. Só que acho mais perigoso ainda cair num bueiro aberto enquanto estou correndo e ao mesmo tempo escrevendo um poema no meu celular.


O poema a seguir é um desses “poemas de rua” que escrevi sem escrever. Um poema “de mente”.
                                                                     

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Universalidades particulares


Tive de recorrer à prosa poética pra me colocar.


Habeas porcus

Nas cidades perplexidades nos campos escassos pirilampos um Chapolin do Mal Trumpolim pra famigerada fama de demolir o barraco de Obama sinal dos templos maus exemplos vindos de cima as loucuras do clima futuro sombrio como o frio novo Muro de Berlim no fim da picada texano insano enquanto no resto do mundo crianças sem esperança em nada são fulminadas pela fome ou pelos homens com balas perdidas e achadas enquanto a utopia entupia e virava entropia enquanto o pinto pia a pia pinga e ninguém nos vinga nem redime ainda bem que meu time foi campeão e essa terra não tem vulcão nem ciclone só uns clones drones e iphones e outras muambas de Cochabamba e logo é Carnaval, que mal habeas corpus sarados bronzeados...